
Institute of Radical Imagination | RAIO DA RAIA! Uma topia en curso
20 a 24 de outubro de 2026
Aberto ao público
Locais: Pó de Vir a Ser e Sociedade Harmonia Eborense
Organização: Pó de Vir a Ser e Institute of Radical Imagination
Moradas:
- Pó de Vir a Ser – Rua de Machede, 58, 7000-864 Évora
- Sociedade Harmonia Eborense – Praça do Giraldo, 72, 7000-508
“Paz, trabalho e pão”
Catarina Eufémia
RAIO DA RAIA!— uma topia en curso é um encontro de cinco dias organizado conjuntamente pelo Institute of Radical Imagination (IRI) e pela Pó de Vir a Ser, com a colaboração da Sociedade Harmonia Eborense (SHÉ), em Évora. Concebido como parte de uma relação de continuidade, procura criar as condições para uma leitura partilhada do presente a partir das coordenadas específicas e situadas deste encontro: Évora, 2026, num momento marcado pela aceleração da radicalização política e pela ascensão da extrema-direita, a par da intensificação das alterações climáticas.
O encontro propõe-se interrogar este momento e estas coordenadas através de quatro linhas de investigação interligadas: 1) ecologia, cultura e território; 2) revolução / transição e Intervenção, fazendo eco das diferentes experiências da Revolução Portuguesa e da Transição Espanhola; 3) imaginação transfronteiriça para alianças político-artísticas; e 4) o espaço público enquanto comum: pensar a escultura e a (não-)monumentalidade para a justiça social.
Ao longo da semana, trabalhadores da cultura, ativistas e habitantes dos territórios da fronteira irão explorar formas de se organizarem com — e pela — arte nestes tempos incertos. Raio da Raia procura abrir espaço para a criação de alianças internacionalistas, tecendo ligações entre territórios e propondo modos coletivos de agir fundados numa imaginação radical. Com uma estrutura que se vai auto-organizando em tempo real, o encontro segue por vezes partituras que propõem inflexões coletivas: assembleias e conversas, projeções, oficinas e momentos de criação coletiva.
O título do encontro – Raio da Raia – parte da ambiguidade semântica de raia que tanto designa zona de fronteira, (e, em particular, a fronteira luso-espanhola); como da interjeição pejorativa “Raios!”; sendo que, quando ouvida em conjunto, a expressão “a raia” pode deslizar para “arraia”, palavra antiga para designar “o povo” ou “a gente comum”. O encontro situa-se, assim, na raia, ou seja, na fronteira, para a poder ultrapassar – interrogando como, e a quem, servem as suas lógicas produtivas, mas sobretudo abrindo espaço para outras formas de sentir, fabular e imaginar o mundo para além das fronteiras, raias, e divisões (entre países, classes, espécies,..).
PROGRAMA COMPLETO
21 DE OUTUBRO – Sociedade Harmonia Eborense
16:00–18:00 · Assembleia sobre Revolução / Transição / Intervenção
Uma assembleia pública que explora os movimentos culturais documentados pela revista portuguesa Intervenção, com a participação de Ana Bigotte Vieira, Pedro Cerejo e Airton Monteiro.
20:00–22:30 · Projeção de filme – Pó de Vir a Ser
Informe general sobre algunas cuestiones de interés para una proyección pública
Pere Portabella, 1976 · 149 min.
Filmado nos meses que se seguiram à morte de Franco, este testemunho incontornável coloca uma única questão — como passar da ditadura a um Estado de direito — e deixa que partidos, sindicatos, juristas, militantes e assembleias de fábrica lhe respondam. Portabella entrelaça longas discussões, ensaios e cenas de rua numa vasta cartografia ensaística da Transição espanhola, na qual a experimentação formal e o debate político são indissociáveis. O filme permanece hoje simultaneamente como uma radiografia de um momento fundador e uma reflexão sobre os limites da própria representação.
Esta projeção integra o núcleo do IRI da Acció Portabella, uma iniciativa que celebra o centenário do cineasta catalão Pere Portabella.
22 DE OUTUBRO
16:00–18:00 · Escultura e (não-)monumentalidade para uma topia por vir – Sociedade Harmonia Eborense
Assembleia com intervenções de Pedro Fazenda (Pó), Clara Montoya, Theo Prodromidis e Pablo García Bachiller (IRI).
O Dia da Escultura e (não)monumentalidade considera a escultura como uma prática material e política através da qual se podem cartografar territórios, memórias e relações de poder. Pensando a partir do mármore do Mediterrâneo e com ele, a assembleia irá escutar, manusear e conviver com a pedra, entendendo-a como uma matéria portadora de histórias de extração, trabalho, dívida, fronteiras e poder económico.
Exploraremos outras formas de conquistar e exercer poder coletivo: a partir dos escombros materiais da sociedade capitalista e da memória do antigo matadouro que hoje acolhe a Pó de Vir a Ser. As histórias deste lugar tornam-se pontos de partida para imaginar de que modos o poder pode ser reivindicado, partilhado e exercido em comum.
Através de caminhadas, encontros, processos de criação e debates coletivos, a assembleia colocará as histórias estratificadas deste lugar em diálogo com questões sobre quem tem o direito de falar, ocupar e moldar o espaço público. A escultura torna-se um encontro situado entre matéria, memória e ação coletiva, abrindo formas de cartografar Évora e o Alentejo a partir do chão.
23 DE OUTUBRO
16:00–19:00 · Raio da Raia! – Sociedade Harmonia Eborense
Publicar em torno da raia. Conversar através dos livros
La Dificultad de Ser Español y la Tristeza de Ser Portugués
Rui Silva · Gabinete Paratextual, 2025
La Dificultad de Ser Español y la Tristeza de Ser Portugués é um ensaio visual que acompanha a exposição homónima apresentada em 2025 na marcablanca. O livro é um ensaio gráfico sobre guias de viagem de Portugal e Espanha. A publicação inclui uma introdução, reproduções de vistas da instalação e uma seleção de citações e iconografia retiradas dos livros.
Cinco Cartas Portuguesas
Tula Fernández · Estrella del Norte, 2025
Lisboa, 25 de abril de 1974. Enquanto o país rompe com décadas de ditadura, Pedro Araujo reconhece entre a multidão uma mulher do seu passado: María Paula Cortés, símbolo de resistência e figura central na sua própria história.
Duas vidas marcadas pela luta e pelo amor entrecruzam-se no momento mais decisivo da história de Portugal. Em Cinco Cartas Portuguesas, Tula Fernández narra uma história de amor e memória, de ideais partilhados e caminhos que se bifurcam. Um romance sobre o que permanece, mesmo após anos de ditadura, distância e silêncio.
Sem fronteiras e cooperação cultural. Conspirar através das fronteiras
Com Armando Juntas Territorio (Andy Luengo e Pat Naharro Aguilar, Cáceres), Tula Fernández (Ceuta), Miriam Bachiller Luque (La Línea de la Concepción, Cádiz) e Rui Silva (Porto). Com o acompanhamento de Sara Buraya Boned e Pablo García Bachiller (IRI).
Esta assembleia aberta propõe uma reflexão sobre a colaboração cultural entre territórios e as conspirações internacionais enquanto horizonte político. Esta colaboração permitir-nos-ia criar, expandir e fortalecer uma rede de alianças transfronteiriças no quadro simbólico da fronteira luso-espanhola, a mais antiga e estável da Europa. Procuramos deslocar o olhar da visão securitária, violenta e excludente da “Fortaleza Europa” e abrir-nos, em contrapartida, ao tecido mais matizado, humano e sensível da fronteira.
Este é um convite aberto a “conspirar” em conjunto: a tecer novas alianças internacionais, intergeracionais e interespécies entre o Alentejo e a Extremadura, e para além destas regiões.
Da Raia alentejano-extremenha a Ceuta ou La Línea, territórios fronteiriços de violência e despossessão, mas também de solidariedade e insurgência política. Queremos recuperar a história das relações passadas e, ao mesmo tempo, imaginar novas relações. Desejamos reunir agentes culturais ativos na região que se sintam interpelados por este apelo.
Queremos questionar a ideia, tantas vezes repetida, de que os espanhóis viram as costas a Portugal. Sobretudo porque isso simplesmente não corresponde à realidade: somos muitas pessoas — portuguesas e espanholas — as que olham umas para as outras, se reconhecem e desejam a fraternidade e a sororidade que os nossos povos merecem.
24 DE OUTUBRO
11:00–12:00 · Cooperativismo nos comuns territoriais – Pó de Vir a Ser
A mesa-redonda sobre cooperativismo nos comuns territoriais, com Margarida Mendes e Joaquim Moreno, aproxima ecologia e território para investigar o cooperativismo nos comuns territoriais.
Partindo de investigação de campo em zonas húmidas e rios de todo o Portugal, Margarida Mendes propõe na sua intervenção um espaço para pensar as relações entre comunidades, materiais e fluxos de distribuição que se estabelecem através deles. As suas observações empíricas cruzam-se com investigações de cientistas e experiências relatadas por habitantes locais e guardiões dos rios, numa confluência de perspetivas entre ciência, ativismo e justiça ambiental, e com o trabalho que desenvolveu com o coletivo Natural Contract Lab ao longo da última década.
A apresentação de Joaquim Moreno sobre cooperativismo aprofunda os modelos cooperativos enquanto formas alternativas de organização territorial assentes na propriedade coletiva e na governação partilhada. Em conjunto, as duas apresentações convidam-nos a pensar a ecologia e o território como questões entrelaçadas de produção do comum, governação e justiça espacial, e não como domínios separados.
12:00 · Apresentação do mural pintado durante a semana
Esta pintura mural sobre uma tela de cinco metros é concebida como um documento vivo dos cinco dias do encontro Raio da Raia!. Mais do que um registo linear, a tela transforma-se numa prática coletiva viva, dando lugar a um fazer afetivo-político a partir das ferramentas de Taring Padi.
Taring Padi é um coletivo de artistas indonésio fundado em 1998 por um grupo de estudantes de arte progressistas e ativistas, em resposta às convulsões sociopolíticas vividas na Indonésia durante o período da Reformasi. Protestos de rua, oficinas de xilogravura, carnavais artísticos e exposições em espaços não convencionais são práticas características da produção coletiva de Taring Padi. Diversas alianças políticas ad hoc, comunidades agrícolas e piscatórias, bem como os seus próprios contextos locais, são lugares onde Taring Padi trabalha e aprende em conjunto. Faixas, cartazes xilogravados e marionetas de cartão, assim como o popular grupo musical Dendang Kampungan, são fórmulas artísticas através das quais Taring Padi agita, educa e se organiza a si próprio, à sua comunidade e às diversas ações de solidariedade em que participa.
16:30 · Plenário final — Festa
Esta assembleia aberta encerrará Raio da Raia! — uma topia em curso, procurando sintetizar as aprendizagens e as estratégias coletivas destes dias e pensar, em conjunto, como poderemos continuar a colaborar, a coordenar-nos e a conspirar nos próximos anos.
Fechamos com uma festa-convívio!
____________________________________________________________________________
INTERVENÇÕES ARTÍSTICAS COLETIVAS
Oficina de estampagem de t-shirts com Taring Padi
21 de outubro – 10h00 -13h00
– trazer uma t-shirt branca ou de cor clara, para impressão-
Uma oficina prática de estampagem de T-shirts, na qual as pessoas participantes aprendem técnicas de impressão e transferência e criam a sua própria peça, do início ao fim, enquanto ferramentas para a nossa autoprodução coletiva. A oficina abre uma linguagem comum em Raio da Raia! através de um ato criativo coletivo que parte das ferramentas de Taring Padi para organizar, educar e agitar.
inscrições para geral@podeviraser.pt
Manhãs na Pó de Vir a Ser
20-24 de outubro
Pintura mural sobre uma tela de cinco metros – TARING PADI
Esta pintura mural sobre uma tela de cinco metros é concebida como um documento vivo dos cinco dias do encontro Raio da Raia!. Mais do que um registo linear, a tela transforma-se numa prática coletiva viva, dando lugar a um fazer afetivo-político a partir das ferramentas de Taring Padi.
Ações artísticas em curso – IRI
Derivas, pensamentos e materialidades para a ação escultórica.
Uma conversa aberta sobre o poder das pedras, a história da escultura, a arte e a cultura para imaginar ações coletivas possíveis. Estamos abertas ao que acontecer entre as materialidades e os corpos no espaço diante de nós.
Institute of Radical Imagination (IRI)
O Institute of Radical Imagination (IRI) é um grupo de curadores, artistas, ativistas e investigadores com um interesse comum na coprodução de conhecimento enquanto investigação-intervenção artística e política, orientada para a concretização de formas de vida pós-capitalistas no Mediterrâneo e no Sul Global.
Condição do Campo é um ciclo de residências artísticas que explora a escultura em diálogo com outras formas de arte, como som, fotografia, pintura, desenho, performance e literatura. Esse espaço de experimentação busca novas formas de organizar a pedra e a escultura, expandindo seus limites e refletindo sobre seu significado.
GEOLOGIA DA ATENÇÃO é o programa bienal da Pó de Vir a Ser. A Pó de Vir a Ser é uma estrutura financiada pela República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto / Direcção-Geral das Artes e Município de Évora. Integra a RPAC – Rede Portuguesa de Arte Contemporânea.
