sobre o tempo – um texto da Renata Bueno

Na rua, tudo acontece como todos os dias enquanto no alto da torre, o artista solitário muda os ponteiros do relógio. Matta-Clark, no seu filme/performance Clockshower (Chuveiro-relógio) está pendurado no relógio do arranha-céus em Nova York e executa atividades corriqueiras como barbear-se, escovar os dentes…

Que tempo é esse que o artista questiona?

Foi outro dia que eu estava naquele lugar, desenhando o entorno de uma vassoura com pó de mármore no chão. Solitária também eu, transformando uma ferramenta corriqueira em vazio, intervindo na paisagem. Pó que se transformou em mancha, figura-desenho no chão ocre.

Agora o tempo é outro, tempo de estar em casa . Recolher-se. Agora, meus actos corriqueiros, como os de Matta-Clark lá em cima no relógio, são tão por mim observados. Também escovo os dentes, me olho no espelho, cozinho, lavo as mãos. Observo cada movimento com atenção. Não posso estar onde estava mas o tempo passa e o desenho também se transforma em outra paisagem que não é mais a minha. Solitário?

O registro de longe me traz a notícia, mas mais do que isso a memória daquele instante. Instante que agora tento recuperar através da impressão no papel. A mesma atenção daquele momento. 

Muitos estão em casa. Muitos escovando os dentes, fazendo a barba, vendo as notícias. Mas com que atenção estamos olhando para nossas acções? 

Que tempo é esse que modifica o mundo?

Vejo o ocre agora tomado pelo verde que brota, como se trouxesse a esperança. Pequenos pontinhos vermelhos. O entorno se espalha e invade outros limites que eu não previa. Novo desenho que se confunde com a paisagem, novas maneiras de se relacionar, novos limites. 

Olho com atenção e me emociono com o passar do tempo.

Renata Bueno – abril 2020

OFICINAS DO POSSÍVEL tem o apoio da República Portuguesa – Cultura/ Direção-Geral das Artes. É um projeto da Associação Pó de Vir a Ser em co-produção com o Município de Évora. Tem o apoio do NERE – Núcleo Empresarial da Região de Évora e da ASSIMAGRA – Recursos Minerais de Portugal.

A Residência Artística de Renata Bueno conta ainda com o apoio da Marvisa – Mármores Alentejanos e das Oficinas do Convento – Associação Cultural de Arte e Comunicação.